Estava eu aqui, desolado ,levemente aquecido pelo calor que o fogão emanava.Resolvo me encostar na cadeira e dar a devida atenção para cena que se desenrolava a poucos metros de mim. Há um homem, já velho, com oitenta e três anos (creio eu),tomando em sua simpática xícara amarela, um cheiroso e esfumaçado café preto. Ele tem cabelos despenteados e seu semblante é cansado.A noite já anunciava o típico frio de inverno e como todos os fins de tarde,mais uma vez o homem devorava as bolachas secas,os farelos voando felizes pela mesa.Sacos de biscoito e adoçante dietético,repousam como quem não quer nada, ao lado do radinho azul,o qual embala essa fria noite com músicas que faziam o homem retornar a sua juventude e lembrar como tudo era mais fácil.
Terminada a sonolenta música,de acordes suaves e tristonhos,ele senta-se no banquinho em frente ao fogo que estala e crispa ruidosamente.Era o único som que se espalhava pela cozinha circular.Endireito-me na cadeira e arrumo as almofadas de lã mesclada.Observo novamente o homem,agora com mais curiosidade que antes.Ele não comia,nem cantava,nem aquecia-se.Para minha surpresa,ele dançava uma valsa solitária e rodopiava como se realmente estivesse com sua amada nos braços!
Até o olhar,antes cansado e desiludido,brilhava tanto quanto a chama avermelhada ao meu lado.Ele lembrou-se,dizendo-me mais tarde,de como dançava em noites como essas, com sua mulher. Era uma paixão que o tempo não apagaria,como apaga os dizeres na areia,nem congelaria,como a brisa faz com as folhagens mais novas.E cada vez que ele ouvia o som do estalar da madeira quente,acompanhado do café que sua mulher fazia tão bem,ele sabia que não estava só.Estava em memória com seu antigo,porém tão vívido,amor.






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