quarta-feira, 7 de julho de 2010

BREU: Fotografia (parte 1): "A luz apagou-se e foram mergulhadas em um terrível e negro silêncio."



.Quando Cíntia chegou,com a bandeja de nachos,algo parecia estar errado.Ela olhou para Jaqueline e perguntou,bem devagar... “Quanto tempo fiquei fora?” “Não muito,porque?” “Olhem lá para rua”.




Às 9:00h da manhã,o tempo sofreu uma grande reviravolta.Toda a claridade transformou-se em breu.Então acenderam as luzes.As árvores pareciam querer juntar-se aos anjos,tal era a força do vento,que enraivecido,soprava.Ligaram o rádio.O portão,rangia e sacudia.Os vidros refulgiam e brilhavam a cada raio e trovão,respectivamente.No começo,eram gotas pequenas,espaçadas,depois veio a densa cortina de chuva que varreu tudo que encontrou pela frente.A luz apagou-se e foram mergulhadas em um terrível e negro silêncio.O medo começou a crescer agora que podiam ouvir suas respirações.As empregadas soltaram gritinhos de pavor.Marie,tão assustada quanto,tomou frente a elas,que estavam encolhidas em um canto,de frente para a janela.A mesma dava a impressão de qualquer minuto explodir em milhões de pedaços de vidros.
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É uma pena que vocês não estivessem lá ,naquela fria e chuvosa manhã que virou noite sem aviso prévio.Queria tanto poder mostrar pra vocês a sensação de medo que aquelas 5 mulheres,de diferentes essências e idades,estavam sentindo.Ou até mesmo como tornaram-se uma,unidas pelo receio do desconhecido.Queria  tanto uma forma de poder descrever como o vento era cortante e a chuva parecia ácido,pronto para corromper a frágil janela.Quem sabe eu tire uma foto,que tal?

 Primeiro teria de subir uma árdua faixa de asfalto e cascalho,encarando o céu tempestuoso negro e revolto ,e aos poucos me aproximar da única residência da redondeza,a imensa mansão de Karina Monteiro.Fachada de vidro,telhas vermelhas, ornamentos em madeira nos cantos e tijolinho à vista nas laterais,faziam da casa dela a mais bonita da cidade.A mais cara,pelo menos.Não podemos esquecer da enorme porta de madeira ( não poderia ser diferente,não é?Lá mora um gigante de 1,50 m) que tornava a entrada nada tranqüilizadora.                                                                                   



Continuamos subindo então,porém me desculpo, o vento me empurra com a força de um touro e admito que nunca senti tanto medo de ser esmagado como agora.As palmeiras parecem canudinhos de refrigerante cravados em algodão molhado e postos em frente a um ventilador gigante.Pelo menos a mim pareceu isso.Cheguei.A porta ornamentada com imagens de vários animais não me ajuda em nada em minha tentativa de permanecer calmo antes que o céu caia em mim. Há um enorme gavião esculpido na porta e ele traz uma cobra em suas garras.Ela é boa no que faz,pensei,essa tal de Karina.A uns três metros da porta, começa a fachada que falei anteriormente.Agora sim vou conseguir tirar a minha foto.Espio lá dentro.Está muito escuro.Olho em volta.A cidade inteira fora mergulhada nas trevas,postes devem ter caído e carros colidido.Um caos.Uma senhora com cabelos grisalhos e algumas charmosas mechas brancas está parada mais à frente das outras 4 meninas.Elas parecem muito assustadas.Colo meu rosto no vidro frio e vejo com mais clareza o rosto de Marie.Ela tem traços bonitos,mesmo para sua idade já avançada,mas a preocupação trás à tona três risquinhos ao lado dos olhos acastanhados claros,são rugas.Ela ainda está com uma bandeja de nachos nas mãos e pede para uma suntuosa negra,alta e com feições delicadas de princesa africana no seu auge,pegar o telefone no andar de cima.Ela balança a cabeça negativamente e posso ver o medo mais uma vez estampado em seu rosto.A loira encolhida no canto é só trevas e dela enxergo apenas as coxas firmes e o corpo encolhido em um canto longe de mais para meus olhos cansados e inundados de chuva, verem.



                                                                                                                                                           Nossa,a foto! Estava esquecendo.Elas nem repararão no flash tímido que dispararei com tantos raios a cortar o céu.Raios e luz.Acho que Marie me viu. Ou a minha sombra talvez.Está recuando...está sibilando agora,está mais apavorada do que nunca.   

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