sexta-feira, 16 de julho de 2010

BREU: Fotografia/filmagem (parte 3): " Ele entrou,ela saiu"


Oh,parece que consegui uma excelente fotografia para vocês,não é?Mas definitivamente é uma pena que não tenha me atrasado alguns minutos para tirá-la.Poderia ter apreciado a vista de uma cidade sem luz e sem vida um pouco mais,ou ter notado a real distância da casa para a cidade,como ela ficava imponente no topo da montanha ou até mesmo como ela soava perigosa pela isolação natural. Talvez se tivesse feito alguma dessas coisas poderia ter agora uma foto muito mais clara,com tons alaranjados lindos,um homem misterioso e loiro,intrigas antigas e novas,todas prontas para estourar. 
  Mas nada é perfeito,certo?Eu consegui mostrar em detalhes negros,prata e azulados pra vocês, a situação do temporal,da chuva e do medo que se instalou.Mas não se preocupem,continua chovendo torrencialmente e o medo não é menor,mas as coisas evoluem de formas estranhas.Pessoas encontram-se em lugares que nem sempre deveriam estar, situações se criam quando menos se espera.Acho que é a fórmula mais simples para definir o acaso e o destino.
Eu admito que fiquei vendo essas mulheres mais do que deveria.Eu não fugi quando o vento ficou mais forte,ou quando pensei que Marie tivesse me visto.Sou um tolo e como todos os tolos,sou humano.Morro pela minha curiosidade e tenho um apetite voraz para histórias.Eu não pude partir quando eu vi nosso novo personagem entrando em cena.

Deixe-me filmar:

[  REC °]           14:12 h



Contra a correnteza de um novo rio em ascensão,afogando-se com a água que caia dos céus e com a água que lhe batia quase nos joelhos ossudos,subia um homem alto de pele acinzentada e olhar excruciante.Enrolado em um casaco negro e retalhado,típico de moribundos, ele arrastava a perna esquerda com muita dificuldade e que de longe dava a impressão de ter centenas de rubis cravejados,mas à medida em que o homem se aproximava da porta entalhada,pude vê-lo melhor.O osso branco e escarlate do fêmur do nosso Mensageiro era repugnante,assim como o cheiro de ferrugem característico do sangue que aos poucos impregnou meu nariz e revirou meu estômago,com o simples soprar do vento.                                                                                                                                       Ele chegou à porta  de madeira escura,aquela com animais entalhados,branco como o gesso,duro como o próprio osso que teimava em querer deixar a massa molenga que era a sua perna.O lábio fino se mexia rapidamente,ele gritava.Os olhos azuis e inchados choravam,mas logo a chuva tomava para elas as gotas que escorriam e limpavam os arranhões do seu rosto.Logo ele viu a janela,grande e que ocupava toda a parte da frente da mansão.Arrastou-se o melhor que pode e então viu-as.:Uma velha,uma loira,uma mulata,uma ruiva e uma morena. Cada uma de um pêlo,pensou.Mas todas tinham algo em comum.Usavam um vestido branco e azul,rendas em baixo e nas mangas,eram empregadas e se vestiam como tais.Nenhuma ali era franzina e arrogante como a mulher que ele procurava.Ele não estava gritando quando elas o fitaram,sentindo o pânico crescer dentro de si.Também não estava batendo no vidro,apenas desejando que uma delas fosse burra o bastante para abrir a porta para ele.O homem,agora que tinha a atenção da platéia, olhou para trás e depois para elas,improvisou a melhor cara de dor (não fora difícil,ele a carregava desde o nascimento) e desabou bem embaixo dos seus olhos.



 O ruim é que nem sempre consigo descrever os acontecimentos em tempo real.É preciso manipular o tempo e os pensamentos para uma melhor descrição.Deixemos de lado o homem caído da nossa filmagem e voltemos para a sala com sombras alaranjadas.



O sofá parou de tremer.Era loiro.Tinha cabelos loiros e molhados até os ombros firmes e levemente arqueados.Esse sangue seria seu,estaria muito machucado?Ou então teria matado alguém?A polícia poderia estar em seu encalço.Era lindo e lembrava o Dieguito.Era misterioso e trazia à tona pensamentos há muito enterrados,afogados.Ele lembrava Ricardo.Oh,Deus,era muito parecido com Ricardo.Seria ele?Não,teria de ter mudado,muito tempo se passou desde então.O homem escorregava lentamente,a cabeça parecia estar cada vez mais pesada.Estaria ele morrendo ou fingindo?Oh,virgem Maria, porque está acontecendo isso logo hoje?!Teria realmente trancado a porta?Já nem tenho certeza mais se ela está fechada,menti para Marie.Se eu soubesse,se eu soubesse desse homem!Mas não,tudo ficou entre ela,Cássia e Jaque,o trio maravilha!E agora?

  E agora?

Você consegue imaginar que pensamentos turbulentos,confusos e até mesmo contraditórios pipocavam entre suas cabeças?Um minuto se passara e elas continuaram ali.Paradas,esperando o sangue congelar totalmente,esperando alguma atitude dele.Ou delas.Mas nada ele fez durante esses 1 minuto e 20 segundos que se passou.Elas só pararam de tremer um pouco,o sofá estava praticamente vivo.Todas sentiam algo.Ninguém sabia o que era. Cecília levantou-se, o rosto um pouco vacilante. “Eu vou abrir”,disse com uma voz fraca,sem emoção.Caminhou ignorando os protestos de Ana Paula e Jaqueline,que consistiam em : “Não!”. “Você está louca?” e “Pelo amor de Deus,Ciça,não dê mais nenhum passo!”.

Marie levantou-se,o rosto decidido.Era apenas um borrão quando a porta da cozinha deslizou e fez clék. Estava fechada,selada por dentro.Os sons  foram distintos:uma gaveta de correr abrindo e fechando,talheres e o silêncio.

Cecília abriu a porta de madeira,lutando contra o vento e desapareceu na escuridão.

Ambas as portas abriram-se.As duas explodiam em contrastes de cores. Da escuridão surgiram duas novas pessoas.Da chuva,um homem magro e ossudo,totalmente apoiado em uma negra.Da cozinha,algo que outrora fora semelhante à Marie,agora sem traços de bondade ou sequer de humanidade.Era apenas um rosto seco,sem vida e incrivelmente inacessível.Fechado para humanos,aberto para instintos defensivos.O avental florido e amarelo firme na cintura,uma faca de cortar carne,lâmina laranja,em riste.O estranho Mensageiro entrou e uma nova Marie saiu.

Um comentário:

  1. admito que essa parte foi um pouco mais dificil de entender, mas tão bem descrita que muito pude imaginar. gostei muito, sim, e quero mesmo ler o resto !
    obrigada pelo comentário, logo vou postar mais (:

    ResponderExcluir